Nobres amigos,
Gostaria realmente
de não usar o vocativo apenas por questão de estilo, gostaria realmente de
tê-los na conta da nobreza, e muito mais na conta dos amigos. Porém, neste
momento em que necessito de vossas mãos e de vossas consciências encontro-me
sozinho e esse desamparo me enfraquece e me põe na evidência dos mártires.
Incomoda-me pensar
na sua situação, me incomoda pensar na minha situação, pensar que seus alunos,
aqueles que certamente algum dia nessa sua pequena vida, determinaram a sua
razão de ser professor, emolduraram uma chama de ideais respaldadas na vontade
de poder, direcionada para aquela já distante possibilidade de construção de
uma sociedade semente de uma nova ordem realmente cidadã, que esses mesmos
alunos que também são meus, olhem para nós dois e não vejam apenas um, unidade
esta, não no sentido amorfo que nós coíbe as boas diferenças. Mas no sentido
monolítico de força e poder transformador, principalmente concentrado na
extemporaneidade de nossas consciências em moto-perpétuo, construindo-se
perenemente e tomando forma em nossas ações coletivas.
O sentimento que me
toma nesse momento é de contínuo e crescente incômodo, gostaria que você se
colocasse na minha posição assim como tento colocar-me na vossa. Devo
confessar-lhe que, quando me concentro a realizar tal esforço, de súbito, sou
tomado por um sem-número de sentimentos que me mortificam a existência Não
encontro, então, palavras para descrever a situação daqueles que fizeram do
medo e da covardia a sua morada e nela fincaram raízes, digo-lhes que este solo
é bastante infértil e aqueles que dele se alimentarem apenas irão gerar frutos
que já nascem podres nas pontas de seus galhos secos.
Seu medo é a minha
fraqueza, sua omissão meu flanco aberto, seu descaramento e suas mentiras, a
vitória do meu (nosso) algoz. Sinto-me cansado, não consigo suportar o peso
desse abandono, o mundo é uma lousa grande demais para os meus pequenos e
frágeis braços, é uma sala de aula tão apinhada e bagunçada que minha voz não
alcança os seus limites e a escola nunca mais foi a mesma desde que você
trancou-se numa sala que não consigo abri-la.
Espero por você
aqui do lado de fora dessa prisão sem muros, de certo a pior de todas, pois
infelizmente não posso ir buscá-lo aí dentro e protegê-lo como devem fazer os
irmãos se você insiste em enganar-se e acreditar, no redemoinho de suas
elucubrações, que este homem que se diz patrão, este que se põe como seu dono e
que te grita aos ouvidos, seja este o seu irmão e dói-me pensar que você
identifica-se mais com ele do que comigo, estarei aqui, de braços abertos para
acolhê-lo nessa luta que é nossa, nesse novo mundo que se lhe apresenta, um
mundo livre das amarras do medo, junto àqueles que lhe querem realmente bem.
Professor Sergio
Matias
Fonte: Sinpro/PE

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