sexta-feira, 7 de junho de 2013

Aos professores que se recusam a participar da greve

Nobres amigos,
Gostaria realmente de não usar o vocativo apenas por questão de estilo, gostaria realmente de tê-los na conta da nobreza, e muito mais na conta dos amigos. Porém, neste momento em que necessito de vossas mãos e de vossas consciências encontro-me sozinho e esse desamparo me enfraquece e me põe na evidência dos mártires.
Incomoda-me pensar na sua situação, me incomoda pensar na minha situação, pensar que seus alunos, aqueles que certamente algum dia nessa sua pequena vida, determinaram a sua razão de ser professor, emolduraram uma chama de ideais respaldadas na vontade de poder, direcionada para aquela já distante possibilidade de construção de uma sociedade semente de uma nova ordem realmente cidadã, que esses mesmos alunos que também são meus, olhem para nós dois e não vejam apenas um, unidade esta, não no sentido amorfo que nós coíbe as boas diferenças. Mas no sentido monolítico de força e poder transformador, principalmente concentrado na extemporaneidade de nossas consciências em moto-perpétuo, construindo-se perenemente e tomando forma em nossas ações coletivas.
O sentimento que me toma nesse momento é de contínuo e crescente incômodo, gostaria que você se colocasse na minha posição assim como tento colocar-me na vossa. Devo confessar-lhe que, quando me concentro a realizar tal esforço, de súbito, sou tomado por um sem-número de sentimentos que me mortificam a existência Não encontro, então, palavras para descrever a situação daqueles que fizeram do medo e da covardia a sua morada e nela fincaram raízes, digo-lhes que este solo é bastante infértil e aqueles que dele se alimentarem apenas irão gerar frutos que já nascem podres nas pontas de seus galhos secos.
Seu medo é a minha fraqueza, sua omissão meu flanco aberto, seu descaramento e suas mentiras, a vitória do meu (nosso) algoz. Sinto-me cansado, não consigo suportar o peso desse abandono, o mundo é uma lousa grande demais para os meus pequenos  e frágeis braços, é uma sala de aula tão apinhada e bagunçada que minha voz não alcança os seus limites e a escola nunca mais foi a mesma desde que você trancou-se numa sala que não consigo abri-la.
Espero por você aqui do lado de fora dessa prisão sem muros, de certo a pior de todas, pois infelizmente não posso ir buscá-lo aí dentro e protegê-lo como devem fazer os irmãos se você insiste em enganar-se e acreditar, no redemoinho de suas elucubrações, que este homem que se diz patrão, este que se põe como seu dono e que te grita aos ouvidos, seja este o seu irmão e dói-me pensar que você identifica-se mais com ele do que comigo, estarei aqui, de braços abertos para acolhê-lo nessa luta que é nossa, nesse novo mundo que se lhe apresenta, um mundo livre das amarras do medo, junto àqueles que lhe querem realmente bem.
Professor Sergio Matias

Fonte: Sinpro/PE

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